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21 de out de 2010

Clarissas no Mundo




As Irmãs Clarissas encontram em Santa Clara de Assis (1193-1253) a sua mãe, mestra e fundadora. Seus escritos e suas palavras são uma herança riquíssima, um tesouro vivido e transmitido através dos séculos, em inúmeras fundações no mundo inteiro, e que possuem uma indiscutível atualidade. As marcas da espiritualidade clariana exercem uma força de atração significativa em todos os continentes. Através da mística clariana e de seu caminho de espiritualidade compreendemos nossa missão como um serviço à Igreja. Somos “colaboradoras do próprio Deus e sustento dos membros vacilantes de seu inefável Corpo” . Nossa vida claustral clariana continua o empenho de irradiar o testemunho da pobreza, da vida orante e contemplativa, da sororidade e da clausura. Foi o que Clara, em seu tempo, irradiou com uma claridade nítida e visível. Nestes quatro elementos fundantes se articula toda a experiência humana e espiritual da Clarissa, hoje e sempre. A caminhada profético-mística de Clara lança luz e matizes sobre o caminho de espiritualidade da Clarissa, para o nosso hoje histórico, pleno de desafios rumo ao futuro. Temos consciência de que a vida contemplativa é vital para a Igreja e para a humanidade. A vocação contemplativa clariana se move dentro desta perspectiva de certeza e de fé. Uma fé que se sente responsável por fazer contínuas retomadas de seu vigor fontal, de sua raiz batismal e de sua caminhada no decorrer da história. Há momentos propícios para essa revisão enriquecedora, esse olhar retrospectivo, que pode ajudar a iluminar o que vem adiante. Quando comemoramos os oitocentos anos da fundação das Clarissas, que são chamadas de II Ordem Franciscana, encontram seu espaço para dizer algo de seu fecundo avanço histórico e presença no Brasil e na América Latina. Além disso, para expressar a essência de sua caminhada e espiritualidade hoje. Primeiro, colocaremos uma visão geral da presença e da história das Clarissas no mundo; em seguida, na América Latina e no Brasil. Tentaremos também expor de que modo a espiritualidade clariana é fator de renovação, empenho e essencialidade na vida claustral da Clarissa hoje.

1.Uma visão panorâmica da história clariana no mundo

A Ordem das Clarissas nasceu na noite do domingo de Ramos de 1211, quando Santa Clara consagrou-se a Deus na igrejinha da Porciúncula, nas proximidades de Assis, diante de São Francisco e de seus primeiros companheiros. Seguiu-a sua irmã Inês, e as duas passaram a residir no pequeno Mosteiro de São Damião, reconstruído pelo próprio São Francisco, onde logo ingressaram novas companheiras dentre a nobreza de Assis e dos arredores, assim como plebeias de vários lugares. Quando em 1253 morre a fundadora da Ordem, o número de fundações em toda a Europa aproxima-se de cem mosteiros, a maior parte na Itália. As fundações foram também abundantes na Espanha, França e Países Baixos. O primeiro mosteiro a ser fundado fora da Itália foi o de Pamplona, Espanha, já em 1228, quando na pátria de Clara o número chegava a vinte e quatro. As fundações multiplicavam-se por toda parte, impulsionadas pela força do Espírito. As Clarissas, membros de uma Ordem contemplativa claustral, possuem paradoxalmente, desde a sua fundação em 1211, uma interessante característica missionária de estabelecer-se em lugares de fronteira e de vanguarda. Assim ocorreu já nos inícios, com fundações em territórios que estavam sendo tomados pelos muçulmanos, no Oriente Médio, na Polônia e Espanha, onde muitas Clarissas morreram martirizadas, sendo também proclamadas bem-aventuradas. Como os mosteiros fossem autônomos, as fundações em geral ocorriam a partir de iniciativas particulares de mulheres nobres e ricas, virgens ou viúvas, que mandavam construir mosteiros, para os quais chamavam um pequeno grupo de Clarissas para ensinar o teor de vida, e onde elas mesmas ingressavam, resultando disso um grande número de Clarissas bem-aventuradas. Santa Clara mesma enviou a alguns mosteiros da Itália suas companheiras e sua própria irmã, Santa Inês de Assis, que posteriormente retornaram ao Mosteiro de São Damião, após terem auxiliado na formação das novas irmãs e na habilidade das observâncias claustrais damianitas. Outro fator que expandia as fundações, seria a própria iniciativa de mosteiros que, enriquecidos pelo dom de numerosas vocações, implantavam uma nova fundação. A Igreja e os Papas, desde o início, tiveram particular atenção com as fundações nascentes. Para organizá-las e ajudá-las na estruturação jurídica, foram nomeados os Cardeais Protetores, que foram quase sempre os mesmos que para a Ordem dos Frades Menores. Santa Clara manteve sempre um fecundo contato com Papas, Cardeais e Bispos. A história dos inícios não foi absolutamente algo fácil para a fundadora, sobretudo no que se refere ao carisma da radical pobreza evangélica, que só vê aprovado definitivamente com a sua Forma de Vida, dois dias antes de morrer. Durante longo tempo mantivera vivo o ideal e sua realização, através de bulas pontifícias que lhe davam o “direito” de ser pobre e de nada possuir. É o Privilégio da Pobreza, outorgado a Clara por Inocêncio III em 1218 e depois ratificado por outros Papas. Durante o tempo de vida de Clara, várias Regras se sucederam; e após a sua morte, mais outras duas: a do Papa Urbano IV e a de Isabel da França. Com tal variedade de Regras, com suas diferentes observâncias e costumes, os mosteiros independentes eram muito diversificados. Depois de certa época, a Igreja passou a aprovar para as novas fundações somente a vivência da Regra de Urbano IV, que tentou impor, e a da Forma de Vida de Santa Clara. Entretanto, sempre houve uma tendência crescente de os mosteiros pedirem a aprovação da Forma de Vida de Santa Clara, e isso se intensificou neste século que agora chega ao fim. Depois do vigor e impulso vivo no início da Ordem, os séculos XIV, XV e XVI conheceram tempos e focos de grande decadência, que se destacam por um relaxamento na vivência da pobreza e da clausura. Mas também estes períodos tiveram os seus grandes marcos de expansão em novas fundações, e sobretudo nas reformas internas da Ordem, onde sobressaem grandes figuras de Santas Clarissas, como Santa Coleta de Corbie, na França, Bélgica, Luxembugo, Suiça, Holanda; Santa Catarina de Bolonha, Santa Eustóquia de Messina, Santa Camila Varani na Itália; e muitas outras Clarissas Bem-aventuradas e Veneráveis. Os focos de reformas foram localizados e restritos a certo número de mosteiros, na sua maior parte com a aprovação da Forma de Vida de Santa Clara e de Constituições próprias para cada reforma, seguidamente com o apoio da reforma Observante dos Frades Menores ou diretamente com a orientação dos Cardeais Protetores ou do próprio Papa, e por fim pela ação do Concílio de Trento.
Durante o século XVI, num fervoroso espírito missionário, as Clarissas da Europa partem para fundações na América e no século seguinte para a Oceania, os dois continentes que ainda não conheciam a presença clariana. Foram fundações que logo se solidificaram, em meio a muitas aventuras e peripécias, expandindo-se com a afluência das vocações nativas e das jovens descendentes de colonizadores. No século XVII, durante o cisma da Igreja Anglicana, as Clarissas da Inglaterra foram condenadas à extinção. Clandestinamente passaram para o conti-nente europeu, à Espanha, França e Países Baixos, onde se dedicaram à educação de meninas e à manutenção de pensionatos para jovens, com a clausura mitigada. Curiosamente, houve também mosteiros que aderiram ao cisma, e hoje ainda existem as Clarissas Anglicanas. Na Irlanda, com o decreto de Cromwell, que impunha às religiosas se casar, Clarissas de jovens e florescentes mosteiros tiveram que optar por exilar-se na Espanha, só podendo retornar muitos anos mais tarde. Outras esconderam-se em casas particulares, retomando a vida clariana depois na Ilha das Monjas, cujo mosteiro foi posteriormente várias vezes supresso por leis anti-católicas, mas conseguiu a restauração completa em 1892.
Os séculos XVIII e XIX foram marcados pelas perseguições religiosas de José II, da Áustria e posteriormente pela Revolução Francesa, que atingiu muitos mosteiros na Europa, com medidas de supressão, controle, imposição de trabalho social e até com a perseguição e o martírio. Foi a época em que a Ordem contou com o mais baixo número de mosteiros e de Clarissas. Numerosas fundações, para sobreviver, passaram a exercer alguma tarefa ligada à educação, com escolas ou orfanatos, mantendo certo nível de vida contemplativa e de clausura. Apesar de tudo isso, a Ordem de Santa Clara continuou se expandindo noutros continentes. No final do século XIX foram fundados, inclusive, dois mosteiros na Terra Santa, um em Jerusalém, outro em Nazaré. Em 1853 foi reencontrado o corpo de Santa Clara, que durante séculos permanecera sob o altar maior da Basílica construída em 1260, em sua honra, dentro dos muros de Assis. Este fato deu novo impulso renovador à Ordem que, no século XX vê surgir um grande número de fundações na Espanha, África, Canadá, Estados Unidos, Brasil e Extremo Oriente. Surgiram também muitas congregações de irmãs, como ramificação apostólica ou missionária da vida clariana, a partir de algum mosteiro de Clarissas, ou por outras iniciativas, com o espírito da Forma de Vida de Santa Clara. Como Ordem contemplativa claustral que vive a clausura, atualmente as Clarissas observam ou a Regra de Santa Clara ou a de Urbano IV. Muitos mosteiros urbanistas, durante o século XX, aderiram à Forma de Vida de Santa Clara. As novas Constituições Gerais, aprovadas definitivamente em 1988, unificaram grandemente a Ordem no mundo inteiro, embora diversos focos de mosteiros mantenham Constituições pró-prias. Atualmente as Clarissas chegam a vinte mil no mundo, em 986 mosteiros. Permanecem nove denominações de Clarissas, conforme a Regra ou as Constituições que observem: Clarissas (com a Forma de Vida de Santa Clara), as Clarissas Urbanistas, Clarissas Coletinas, Clarissas Capuchinhas, Clarissas Sacramentinas, Clarissas da Adoração Perpétua (com a Regra de Santa Clara ou com a de Urbano IV), Clarissas Capuchinhas Sacramentinas, e Clarissas da Divina Providência. A Igreja, a partir do Concílio Vaticano II, tem fomentado a união dos mosteiros através das Federações, para a partilha e solidariedade recíproca, tanto a nível material, quando necessário, como espiritual, na formação e enriquecimento mútuo. As Clarissas organizaram-se em Federações no mundo inteiro. Os mosteiros continuam a ser autônomos; uma Madre federal é eleita por um determinado tempo, e torna-se responsável por fomentar a formação das irmãs e esse espírito de colaboração e partilha entre os mosteiros.